Coluna Bom Dia

Por pouco

Foi por muito pouco que a eleição de Rio Branco não terminou no primeiro turno. Por menos de 0,5% na verdade. Pode até parecer paradoxal que os votos dos candidatos Jarbas Soster, com 1,29% ou de Jamyl Asfury, com 0,85%, os maiores detratores da prefeita Socorro Neri, tenham sido responsáveis por levála ao segundo turno. Coisas da política.

Bocalom

A onda Bocalom, que se notava na cidade nos últimos dias era real. A mobilização era grande e até o fato de o candidato ter sido acometido de Covid movimentaram a campanha a seu favor. E ele contou com um forte cabo eleitoral, o senador Sérgio Petecão, incansável em seu apoio. Petecão mostrou que sabe o caminho das urnas.

Opção

Uma parte dessa folga de votos para Bocalom se deu por falha de seus adversários. Tanto a campanha de Socorro Neri como a de Minoru Kinpara consideraram equivocadamente o velho Boca como carta fora do baralho e evitaram, por muito tempo, fazer críticas a ele, já aventando a hipótese de que ele apoiasse no segundo turno. As duas campanhas acreditavam piamente que a disputa era Socorro versus Minoru.

Acordaram

Quando acordaram para a subida de Bocalom, já era tarde. A explicação para isso é falta do que se chama de tracking da campanha, a pesquisa diária, que pode ser substituída pelo monitoramento de redes. Nem Socorro nem Minoru se dedicaram a isso, acharam que era gasto supérfluo.

Tracking

O tracking de campanha é necessário como o monitoramento, mas necessita de marqueteiros experientes e coordenação de campanha forte. Quem faz marketing, geralmente não gosta destes instrumentos de medição, que são capazes de pôr seu trabalho em questão. Deu no que deu.

Segundo turno

O segundo turno não será favas contadas para Bocalom. É outra eleição, em um período mais curto, mas outra eleição. Os esforços precisam ser redobrados.

Socorro Neri

A prefeita mostrou que eram muito apressadas as notícias de sua derrota, como fartamente alardeado nos últimos dias. Mostrou que tem resiliência e que merece respeito. Precisará fazer em 13 dias de campanha o que não fez em três meses: se apresentar para o eleitor.

Comparação

Socorro sepultou as pesquisas que a apresentavam em empate técnico com Kinpara. Sua dianteira em relação ao candidato do PSDB foi acachapante.

Todos contra uma

O segundo turno será uma campanha de todos contra uma, sem dúvida. Nenhum candidato derrotado apoiará a prefeita. Ou estarão com Bocalom ou terão, como o PT, que se declarar neutro. Isso, em vez de desvantagem, pode ser uma inesperada vantagem para Socorro Neri. Ninguém é dono de votos, as ur-nas provaram.

Minoru

Só não foi o maior derrotado dessas eleições, porque esse troféu cabe ao PT. Mas comprovou que o que vale para uma eleição não vale para a outra. Entrou forte e murchou durante a campanha.

Rocha

Minoru Kinpara pode atribuir pelo menos metade de sua derrota ao modo sem sutileza de fazer política de seu mentor, o vice governador Rocha. Tal como um elefante em loja de louças, Rocha se indispôs com todo mundo que poderia apoiar Minoru, atropelou partidos, lideranças e acabou falando sozinho. Só ele e a irmã.

Contraste

Inevitável se fazer o contraste entre o bem sucedido governador Gladson Cameli, que nessas eleições comprovou sua popularidade e seu poder de transferência de votos, o homem capaz de agregar, com Rocha, que faz do confronto seu método político. O governador saiu engrandecido e Rocha em baixa.

MDB

O MDB, de suas quatro principais apostas, perdeu três. Só conseguiu a vitória na mais previsível, em Sena Madureira. Mas o partido foi derrotado em Cruzeiro do Sul, onde a derrocada da dinastia Sales é visível, depois dos escândalos. Perdeu também em Rio Branco e em Brasileia.

Duarte

Duarte errou ao levar o MDB excessivamente para a direita. O que valia em 2028, já não vale mais. Com ele, o partido perdeu sua identidade, suas lutas. A agenda moral, religiosa, não é a praia do MDB. Nunca foi, estava fadado a sair bem menor do que entrou. Esse desempenho ruim também recairá sobre o senador Marcio Bittar.

Brasileia

Em Brasiléia, a aposta foi errada. Desgastado com os escândalos de ex-prefeitos, foi buscar no PT sua candidata. O eleitor não comprou essa conversão e aliança com Leila Galvão e preferiu ficar com a continuidade de Fernanda Hassem, embalada por uma excelente campanha nas redes sociais.

Cruzeiro do Sul

O desafio para o governador estava posto. Ele não poderia perder em sua terra. E não correu riscos. Zequinha Lima enfrentou uma campanha de fake News pesada e a força da tradição dos Sales, e venceu com propriedade.

PT

O PT fez a aposta arriscada. Trocou o que era um casamento sólido com Socorro Neri, desde 2016, por um rompimento causado pela sede de poder. Apostou na memória afetiva da população, despiu-se das bandeiras vermelhas, mas não funcionou. O partido definhou e muito. Tinha quatro vereadores na Capital e ficou sem nenhum. Seu parceiro PC do B também perdeu seu assento na Câmara Municipal.

Kombi

Com pouco mais de sete mil votos na Capital, depois de vencer em 2016 com mais de 70%, ficou claro que o PT não enche mesmo nem uma kombi. O partido terá que se reinventar.

Caminho

O caminho é fácil de ser traçado. Basta ver onde ainda é forte: na sua tradicional base sindical rural do Vale do Acre, onde o partido nasceu e se fortaleceu. É uma lição de que o partido precisa voltar às origens, baixar a bola, acabar com a soberba. Mais que nunca o exemplo de Chico Mendes e dos sindicalistas que estão na origem do PT precisa ser exaltado.

Vereadores

O que explica a renovação de 64% da Câmara Municipal? Simples: a incapacidade de produção dos vereadores. A falta de presença na discussão dos problemas da cidade. Voltaram os mais aguerridos, independente de partido, os que mostram serviço, sem pirotecnia. Serão nove partidos representados na Câmara Municipal.

Demora

Chamou a atenção a demora nos resultados e houve muitos boatos sobre invasão hacker do TSE. Mas foi uma pane em um supercomputador. Como o TSE centralizou as apurações este ano, a coisa se complicou.

Quadro

O quadro que emerge do país é a rejeição à ultradireita. E também um forte recuo do PT, que só disputa o segundo turno em duas capitais e com o vice da chapa de mais duas. Os candidatos apoiados por Bolsonaro também se deram mal.

Batalha

Já começa hoje a batalha do segundo turno na Capital. As armas serão definidas ao longo do dia em conversas e conchavos.

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